
Começo de ano.
(by Raque)
Vontade de começo, de novas experiências, de novos amores ou de refortalecer tudo aquilo que já conquistamos.
Ao mesmo tempo, ali dentro, aquele desânimo, aquele cansaço, aquela desesperança que sempre nos puxa, mas que lutamos arduamente contra, querendo fugir.
Foi só um trecho do livro da Clarice que me despertou a vontade de escrever sobre a esperança, esta sim, que vence ao final.
Confesso, li apenas um trechinho. Mas que, apesar de curto, demonstra de uma forma tão sincera e simples, a existência, dela: a esperança e para mim, no final de tudo mesmo, a fé.
A fé que move a protagonista a seguir em frente, colocar a roupa bonita, a maquiagem e sair ao encontro da vida, na mais bela singeleza do ser.
Por isso transcrevo parte do texto… Porque a confusão de sentimentos e pensamentos tão conhecida por nós faz sorrir, seja pela similitude das emoções que já experimentamos, seja pela transmissão de fé ou esperança que nos toca de uma forma tão feminina que só Clarice consegue fazer:
Ah, depois do trecho que acredito combinar perfeitamente com a essência do blog da minha querida amiga Pri, vou dizer a minha parte preferida!
“E agora chegara o momento de decidir se continuaria ou não vendo Ulisses.
…; com a mesada que o pai mandava comprava vestidos caros sempre justos, era só isso que sabia fazer para atraí-lo e estava na hora de se vestir: olhou-se ao espelho e só era bonita pelo fato de ser uma mulher: seu corpo era fino e forte, um dos motivos imaginários que fazia com que Ulisses a quisesse; escolheu um vestido de fazenda pesada, apesar do calor, quase sem modelo, o modelo seria o seu próprio corpo mas enfeitar-se era um ritual que a tornava grave: a fazenda já não era um mero tecido, transformava-se em matéria de coisa e era esse estofo que com o seu corpo ela dava corpo — como podia um simples pano ganhar tanto movimento? seus cabelos de manhã lavados e secos ao sol do pequeno terraço estavam da seda castanha mais antiga — bonita? não, mulher: Lóri então pintou cuidadosamente os lábios e os olhos, o que ela fazia, segundo uma colega, muito mal feito, passou perfume na testa e no nascimento dos seios — a terra era perfumada com cheiro de mil folhas e flores esmagadas: Lóri se perfumava e essa era uma das suas imitações do mundo, ela que tanto procurava aprender a vida — com o perfume, de algum modo intensificava o que quer que ela era e por isso não podia usar perfumes que a contradiziam: perfumar-se era de uma sabedoria instintiva, vinda de milênios de mulheres aparentemente passivas aprendendo, e, como toda arte, exigia que ela tivesse um mínimo de conhecimento de si própria: usava um perfume levemente sufocante, gostoso como húmus, como se a cabeça deitada, esmagasse húmus, cujo nome não dizia a nenhuma de suas colegas-professoras: porque ele era seu, era ela, já que para Lori perfumar-se era um ato secreto e quase religioso — usaria brincos? … — pronta, de braços pendentes, pensativa, iria ou não ao encontro? …
Mais uma vez, nas suas hesitações confusas, o que a tranqüilizou foi o que tantas vezes lhe servia de sereno apoio: é que tudo o que existia, existia com uma precisão absoluta e no fundo o que ela terminasse por fazer ou não fazer não escaparia dessa precisão; aquilo que fosse do tamanho da cabeça de um alfinete, não transbordava nenhuma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete: tudo o que existia era de uma grande perfeição. …
Bem, suspirou ela, se não vinha clara, pelo menos sabia que havia um sentido secreto das coisas da vida. De tal modo sabia que às vezes, embora confusa, terminava pressentindo a perfeição — de novo esses pensamentos, que de algum modo usava como lembrete (de que, por causa da perfeição que existia, ela terminaria acertando) — mais uma vez o lembrete agiu nela e com seus olhos ainda escuros agora pelo pensamento perturbado, decidiu que veria Ulisses pelo menos mais esta vez.”
A minha parte preferida é o lembrete para guardar e lembrar a vida inteira: “(de que, por causa da perfeição que existia, ela terminaria acertando)”.
1 Comment
Quel, não sabia que vc escrevia tão bem assim!
Escreva mais menina!! Show mesmo, parabéns!
Beijos
Pri D.
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